terça-feira, 7 de junho de 2011

vim dizer que te amo



Eu estava sentada num daqueles balanços de madeira que toda criança já sonhou possuir. Era uma tarde tranqüila e fria, e apesar da sugestão, não estava nublada  e esbanjava um céu cinza gelo e azul celeste ao mesmo tempo, com um imenso sol amarelo plantado no centro.
Corria um rio de águas cristalinas por entres as árvores e as pequenas serras típicas de Goiás circundavam aquilo que, apesar de singelamente conhecido, eu podia chamar de paraíso.
No paraíso haviam belos cavalos alados que voavam como pássaros gigantes pelo céu, mas os devaneios sobre eles poderiam ficar pra outro sonho, mas não neste aqui. Ao invés das criaturas voadoras que eu sempre quis que existissem, eram estrelas que pontilhavam o belo céu de fim de tarde. Estrelas bem grandes e brilhantes, como se aquele que faz estrelas as tivesse chorado naquele mesmo instantinho, bem ali.
Não havia medo , nem âncias por coisa alguma, tudo pairava no perfeito desequilíbrio que é a perfeição. Tudo estava estático em pleno movimento.
Enquanto sonhava quis escrever que senti saudades. Já era uma outra vida mas precisa-se da libertação que a confissão  nos trás, para gozar dos benefícios de um paraíso pleno.
A primeira saudade impedia às flores de florecerem, e embassava a visão plena do Sol. Era uma saudade antiga que  parecia bem suportável mas coçava bem escondidinha no coração. Era a saudade de um sorriso amigo, de dentes branquinhos, de uma voz imponente e as vezes estridente, de um conforto amigo e presenças que beiravam a realidade paralela. Era uma saudade com cheirinho de perfume que eu senti esses dias no cabelo da Juliana e apertou meu peito como se o cheiro envolvesse o coração num abraço apertado. Era saudade de um olhar sem julgo, e até mesmo dos desvios desses olhares. Era a saudade suprema de um milhão de anos que nem chegaram a ser um, e que duravam um segundo com sabor de eternidade. Era saudades com sabor platônico e de vergonha, quem nunca sentiu vergonha de sentir saudades solitárias?
Era uma saudade de ouro, preciosa e nostálgica, com outro sabor docinho de jamais ter odiado, nem por um segundo, aquela pessoa. E foi a essa  saudade que eu disse adeus, com suspiros de quem se livra de um peso de bilhões de quilos mas pra ser sincero, só um pouquinho infeliz. E o vento soprou e levou embora.
A outra saudade, se é que pode existir maior saudade que a última, envolvia qualquer parte do paraíso com o ar pesado da infelicidade.  Essa saudade, pior do que a outra entupia os canos lacrimais das cachoeiras que banhavam os rios do sonho. Era uma saudade que prostrava, que aniquilava e que singelamente, soprava até as velas. Era uma saudade ruim , por ser boa de mais, que inundava o meu coração com o medo da perda porque sentia-se saudade de um ser amado e nós humanos estamos fadados a sempre perecer de amores, e talvez seja isso o que nos torna bem humanos.
Essa segunda saudade, era uma saudade gigante, pura, amiga. Saudade de um abraço desengonçado, e de mãos bem geladinhas. Saudades fraternas de um melhor amigo.
O vento soprou. E o vento era o tempo. E levou minhas duas saudades mais íntimas por caminhos distantes , bem longe de mim e todo o mundo as conheceu, como se tivessem sido expostas todas as minhas entranhas. E por mais que agora que o vento soprara e o paraíso estivesse limpinho pra mim, faltava-me alguma coisa. Dois pequenos pedaçinhos, ínfimos pedaçinhos da alma, que voltaram para dentro do peito quando alguém disse ‘ vim dizer que te amo’.
E a segunda saudade já não era um buraco mais o próprio Sol amarelo, enquanto a primeira saudade batia exprimida dentro do bolso de um relojoeiro, distante, mas guardada em mim. Ele era as estrelas.
E certamente, a uma saudade gigante demais  mais pro tempo levar embora.
E é por isso que eu vim dizer que te amo, meu  gigante Sol de alma.