domingo, 3 de junho de 2012

E se você me perguntar eu vou dizer...

Ele vinha andando ao meu lado, as mãos no bolso, o relógio cintilando a luz da lua, a fronte da cabeça curvada pro céu, as estrelas penduradas no nariz, os pés com os sapatos engraxados. Eu, eu não sou importante nesta história, então eu vinha arrastando a barra do vestido ,olhando pro outro lado, fingindo que não o via e muitas vezes eu não o vi mesmo. Se ele  é mais alto ou mais baixo do que eu? Depende. Quando ele fala, é mais alto, e quando os meus pensamentos encontram as nuvens, mais baixo. A cor dos seus olhos, essa eu sei bem te dizer. É linda.é tão bonita que se eu fosse parar pra descrever, esse texto não saia, e acredite, faz muito tempo que não sai nada do meu rosto.
Fato é que ele vinha caminhando, e na sua voz , no seu sorriso e nas suas mãos eu via aquilo.sabe aquilo que agente não acredita que exista em ninguém, porque é perfeito de mais? Pois é, nele eu via. Eu via no cuidado, no carinho, na gentileza, no caráter, no espírito, nos tais sapatos engraxados. Nos cadarços. Eu via aquilo e ainda via outro. Outro sei lá o que maluco que eu não sei mas eu só via nele, e ele olhava pras estrelas e eu olhava pros meus pés porque eu não sei olhar pr’outro lugar. O céu quando ele passa muda até de cor, e eu não sabia disso, até que o peguei olhando pra cima e quis olhar também, porque não? E vi que em seus cabelos o azul ficava mais claro, e eu achei aquilo lindo de mais. Puro de mais e eu quis ficar mais tempo ali. Sim, eu quis ficar mais tempo perto dele enquanto ele andava, despreocupado, a cabeça sempre curvada na direção do infinito, os pés que andavam sozinhos, naquele caminho bonito de pedras brancas. E eu só pedia a Deus que ele não me visse porque durante todo o tempo aonde eu andei eu vi crescer flores que murchavam por debaixo do chão, e flores que murcham invisivelmente não combinam com o cintilar que emana da pele dele. Eu quis ficar ali, no ombro dele eu juro. Se você me perguntar porque eu posso te dizer que não sei mas ai Edu estaria mentindo e quer saber de uma coisa? Pra não fazer as flores murcharem eu não quero mais mentir. O ombro dele tem o tamanho perfeito pra minha cabeça pesada, e o seu perfume é claro, se é que cheiro pode sim ter cor. O ombro dele sugou todas as minhas dores, assim em um segundo, e em semanas, em meses, em anos, eu senti que podia finalmente respirar bem fundo e esquecer que eu carrego tantas coisas que eu queria deixar pra lá. É isso, é isso sim ele me encanta. E sabe porque ele me encanta? Porque ele não é assim. Ele olha pra cima praquele céu cheio de estrelas que engoliu meus braços, minhas pernas de sereia e eu nadei, nadei nadei, no rio que ele fez brotar em mim. Um rio calmo que corre mais calmo ainda, mas corre. É um bom rio esse seu.
Então é isso, eu só queria te dizer. Sei lá porque eu não sou boa com as palavras. Eu não sou boa. Queria poder me desculpar por não ser boa, mas eu peço desculpas de mais. Ei, ele anda , anda e anda, e não olha pros lados e não anda pra trás, e não olha pra nenhum dos pontos cardeais, só pra cima. E eu olhei e olhei pra cima, e por causa dele eu lembrei que eu sou de lá. Eu sou de lá! Eu sou desse lugar que esta sentado no universo. Eu sou de uma casa bem grande, bem rica em amor, bem rica de vida, ai meu Deus, ele me fez olhar, e eu cai. Eu sou de lá. Eu também quero voltar pra casa, vejo seu rosto e isso me lembra. Não pode existir nada de feio no seu rosto , alias, sabia? Isso, eu falo comigo mesma o tempo todo. Um rosto puro e limpo como o seu , que contrange de olhar. Não fala mal do seu rosto ei viajante, porque você sabe como eu sei, ah, sei lá. Eu queria olhar pra sempre pra você. Queria mesmo. Quem sabe assim por osmose eu adquira essa beleza interna que é só sua. Quem sabe assim eu não posso encostar a cabeça no seu ombro de novo?
quer saber? Saber, saber, assim eu não sei, nunca soube e duvida que um dia eu saiba. Eu não sei de nada, eu repito repito repito e ninguém nunca entende. É que do seu lado eu encontrei uma cadeira vazia, que você nem sabia que existia, e eu parei ali pra descansar, tirar os sapatos, e você me estendeu a mão, e sua mão , era mais que uma mão, era um abrigo. E eu a peguei e não quis soltar, ai fiquei ali sentada na cadeira, mas meio escura, invisível. Eu quero ser luz suficiente pra você me ver brilhar aqui, mas vai ver eu tenha que arrumar um jeito de parar esse decaimento radioativo. Eu queria falar sobre o carma e minhas outras canções, mas você foi embora ,e  eu sabia que ia, mas você foi, porque você viu que eu ainda estava sentada ao seu lado. E sim, foi uma droga, e eu sabia que você sabia que eu sou o tipo de pessoa que escreve droga num texto que arranha de algum jeito literariamente ... Você ficou em silêncio e foi embora, e esse silêncio era carregado de uma coisa que eu nem quero pensar a respeito. Mas tudo bem, contando que eu possa ver você sorrir e olhar pra cima, bem pro alto, bem pra longe de mim, onde é o lugar de todas as pessoas mesmo. E ta tudo bem, ta tudo sempre bem, mas olha pra cima. Olha que quando você olha pra cima, me dá vontade de sorrir e eu esqueço toda aquela imundice que me cerca, toda aquela solidão que me agonia. E eu quero sorrir, principalmente se for pra você. Então olha pra cima e não vê que eu to sorrindo. Porque eu tou. Porque eu sorrio mesmo, e é internamente mas é sorriso. Diz que não quer chegar perto de ninguém, pode pisar no meu coração mesmo, pisa, quem se importa? Meu coração é duro, é como rabo de lagartixa, ele nasce de novo, cada vez mais fundo e mais fundo. Então se você perguntar como você chegou aqui eu nem vou saber te dizer. E sabe porque? Porque eu quero e não quero te tirar porque dentro de mim é um lugar perigoso, e frio. Mas eu juro que você acendeu algo como um isqueiro. Então, não ouse ir embora, fica, longe de mim, mas fica. Não perceba, olha Deus, não deixa que ele perceba que os olhos dele brilham e que a alma dele é linda. Porque é linda, só não deixa ele saber que eu sei. Mas que eu sei eu sei, então só me deixa quietinha aqui onde eu não me mexo, porque não se se estou descongelada ainda; não estou. Mas pega logo esse seu isqueiro e encosta na minha cabeça, que eu tou cansada de frio! Encosta ele no meu cabelo, que ele pode pegar fogo, contando que em um milhão de anos eu possa me espreguiçar novamente. Ai você pode andar, anda mesmo e não me deixa nem encostar em você, não me deixa terminar esse sentimento bom como uma coisa triste. Pode colocar um vidro, uma barricada. Coloca um véu se você quiser, mas que ele seja transparente porque eu quero te ver. Enquanto eu arrasto a barra do vestido, você inclina a cabeça pra mim acena de volta. Enquanto você acena de volta, e eu não te jogo fora. Não te jogo fora não. Eu só te coloco acima de onde as minhas mãos alcançam. Porque eu não quero estragar você. Eu não quero estragar esse caminho no qual você segue e me leva como sombra junto. Eu quero encostar a cabeça no seu ombro e  fechar meus olhos. Só isso. Então você pode andar e andar e andar, pra onde você tem que ir. Porque vou carregar essas estrelas que caíram no seu rosto. E elas vão brilhar no cantinho mais escondido que tem no meu coração. E ninguém vai saber. Nem você.

Nenhum comentário:

Postar um comentário