terça-feira, 13 de setembro de 2011

Goodbye September, Bye

Querida vovó,
As coisas tem mudado muito por aqui em sua casa. Acredito que , se ainda morassemos juntas você teria nos feito o favor de sugerir uma mudança. Iriamos todos para um lugar bonito e calmo do litoral, onde houvessem bastantes lojinhas para as suas compras. Seriam  locais e o momentos perfeitos. Eu e você andariamos descalças na praia e nossos cabelos se embarassariam com o vento. A areia entupiria nossos poros e você ficaria a rogar precauções enquanto as ondas do mar lambessem seus dedos. Diria " uiuiui" como só você sabe, e o céu estaria limpido e azul. Estariamos a família inteira bem instalada numa casa colonial um num hotel 5 estrelas. Acho que você, dondocada como só, escolheria o hotel. Fariamos bastantes coisas inuteis a tarde inteira. Eu, você a mamãe e a madrinha, e, se fosse perfeito mesmo, até a futura priminha Beatriz. Quando estivessemos voltando pra casa ,tranquilamente, as barrigas cheias e as carteiras vazias, as caras satisfeitas, veja só, vovó o que aconteceria: começaria a chover. Bem devagarzinho sabe. O céu ficaria cinza mas depois voltaria a ser azul; e a chuva deliciosa  molharia muito mais do que a estrada percorrida, muito mais que a praia , as árvores e o mar. Molharia eu e você. Tá,você reclamaria , com medo de um resfriado, mas eu, por dentro, exultaria.Até porque estamos falando do meu mundo perfeito, Dona Iraci, e nele eu posso escrever sem seguir regras gramaticais, e me sentar na grama verdinha do jardim, rodeada de passaros e sentindo frio nos pés. No meu mundo perfeito, sabe, agente conseguiria dormir em paz, e talvez eu acordasse as nove da manhã com o pescoço doendo porque os travesseiros da sua casa são finos e duros. Talvez a luz não entrasse pelas frestas dos meus olhos porque suas janelas eram muito bem tampadas com papel insufilme, e talvez ( sonhando alto) se fizesse frio, eu não o sentiria porque seriam  duas horas da manhã e você estaria acordada com a luz refletindo na ponta do seu narigão e dos seus oclinhos dos anos 40. Você veria se eu estava dormindo e quando abrisse a porta, eu fecharia os meus olhos bem rápido pra te obeceder, e você apagaria a luz com carinho. Quando eu colocasse meus pés no chão você estaria acordada limpando a sua linda casa. Eu sorriria meu mais puro sorriso de afeto e você responderia com aquele seu movimento unico de lábios, dentes e bochechas, o sorriso que coloria meu mundo. Eu te daria um beijo do qual você imitaria o barulho e nós fechariamos os nossos olhos na mesma expressão de sorriso de quem esta contente com tudo. Você diria ' tem pão, mamão,leite, ovomaltine; mas come o mamão primeiro, mamão faz bem pro intestino!" e eu reviraria os olhos pela milésima vez porque detestava a facilidade que você e o vovô tinham de falar sobre isso nas refeições. Nós comeriamos e eu puxaria qualquer assunto idiota porque pra mim, o importante sempre foi ouvi-la conversando. eu queria ouvir sua voz e me esforçava ao máximo para faze-la rir. E se você ria, ai sim, eu ganhava o dia. Parece que fiquei surda agora que não escuto mais o som do seu riso. Nós deitariamos pra assistir televisão o dia inteiro e eu, tola, ficaria bastante tempo no computador, mas se você chamasse, eu largava tudo e ia, até porque não é humanamente possível deixar que espere a dona dessa voz. Eu choro mentalmente ao lembrar que você só me chamava de Nana ou de Lu, e que jamais , jamais a não ser naquele dia em que misturei seus remédios, ouvi você me chamar pelo nome. Ser a Nana era meu refúgio em qualquer momento, estar com você era o meu prazer, era o meu luxo. Eu diria que iriamos passear de novo no vaca brava e tomariamos sorvete de milho até a barriga doer, tudo e tudo de novo! e sorriria e colocaria toda a minha fé nessas palavras, mesmo sabendo que nunca mais chegariamos a realizar nenhuma delas. Eu te chamaria de velinha, cabeça de ovinho, e se o Frederico dissesse isso então, ah, você estaria feita. Nunca vi isso, pessoa que ri da propria cabeça sem cabelos. Nunca vi isso, alguém que não deseja nada além de estar com a família e se  preucupar em demasia por causa de tudo e todos. E ai ai, velinha que se preucupava com tudo era você! Mania de perseguição, mania de limpeza, perfeccionista e  hipocondriaca, cheia de muitas de todas as fobias. Ai minha vovó que tinha os olhos mais bondosos de todo esse mundo.Ai todo meu sonho e toda sua pureza. Ai que dó e tristeza desse mundo que já não é mais esse seu mundo, nem o meu. Nunca vou me esquecer do dia em que me perdi e ,quando cheguei você chorava.quis morrer. Nunca vou me esquecer dos seus olhos inchados e vermelhos, do seu desespero só porque demorei pra chegar em casa. Nunca vou me esquecer do seu alivio, dos seus suspiros, e muito menos dos seus abraços. Eu me jogaria nos seus braços e te acalmaria pelo resto da minha existência. Eu te ouviria reclamar de tudo, eu ouviria você chorar por tudo, contando que você continuasse a existir e me salvar. Ai vovó, que grande mundo sem graça você me deixou! Tudo são trevas e nem tão logo deixarão de ser, se falar de você me trava a garganta , os dedos e os batimentos do coração. nunca vou esquecer nossos ultimos tempos juntas. Nossos olhares secretos que sabiam o que viriaa  acontecer. Querida vovó, nunca vou esquecer o seu sorriso que dizia " deixe disso, tudo bem" e muito menos sua despedida. "Você foi uma das minhas melhores amigas". A melhor parte de mim. Vovó, não posso chorar escrevendo essa carta. Se o papai ou a mamãe aparecerem aqui e me verem chorando vão perguntar o que é, e eu nao posso simplesmente responder " é de saudades da vovó ", porque esse assunto é meio tabu nessa casa, e falar de você faz todo mundo contrair a garganta pra não ser fraco e deixar que os olhos comessem a marejar. Mas não posso  fingir vó, não na sua frente, não consigo ser forte o tempo todo, maisjuro,eu tento. Queria que você tivesse ouvido as melhores coisas que eu tinha pra dizer sobre você, e não queria ter só repitido que você era meu anjo. E aquilo me mudou, você me mudou, e também a sua morte, e também a morte da felicidade e dos dias bonitos. Vovó os dias bonitos se foram, assim como as minhas esperanças e minhas ilusões sobre o que era a vida e o amor, mas não quer dizer que o que você plantou não virou flor e cobriu toda a aminha cabeça. Sim vovó, seus sorrisos deram fruto e me sobraram algumas poucas esperanças vitaminadas , alguns sorrisos resistentes, alguma garra que emanou de você e grudou em mim. Alguma fome de viver, alguma sede de justiça. Alguma vontade de abrir os olhos todas as manhãs e enxergar o mundo que, se não fosse por você, eu jamais chegaria a  ver.  E amanhã é seu aniversário... 65 ou 66 anos? acredita, eu não sei dizer. Mas é seu aniversário e eu vou passar o dia , Senil querida, sendo forte e sorridente, assim como você foi até o ultimo segundo. Vou segurar a sua mão velinha e sentir seu cheiro que impregna minhas lembranças, e o gosto do seu doce de morango vai inundar a minha boca. Nós vamos nos olhar mais uma vez, vovó, como naquele dia em que não sabiamos de nada e você parou de chorar de dor porque eu cheguei e você não queria que eu te visse chorar como um bebê. Eu vou me sentar na sua cama e fazer carinho na sua cabeça. Vou beijar cada centimetro das suas bochechas molinhas, e vejam só, o que vai surgir: o seu sorriso.
Vou lembrar do seu sorriso, particurlamente daquele, e olharei nos seus olhos com todo meu amor, que, só pra constar, não é pouco. por alguns segundos estaremos juntas, celebrando a sua vida, que , sendo sincera,
valeu muito mais  que todo céu, todo mar, todo outro amor que eu já tive.
Adeus setembro, adeus chuva e adeus céu. Basta você ir embora que o calor e as negritudes voltam.
Sorria para mim, do Paraíso, que mesmo sem te ver, daqui da Terra, (Feliz, feliz feliz feliz aniversário dia 14.)
eu prometo, meu tesouro, que eu estarei sorrindo pra você.

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