Havia uma garota sentada na ultima esquina com a ultima casa , numa ultima rua, no ultimo bairro de uma ultima cidade de um ultimo mundo. Fazia um daqueles fins de tarde agradabilíssimos onde se pode ver o pôr do Sol mesmo com os olhos fechados. Por um instante, essa ultima garota fechou os olhos e deixou que a atmosfera empurrasse para dentro de seus pulmões um ar úmido, mas cheio de terra. Um daqueles segundos passados em completo êxtase existencial, foi isso que ela viveu e presenciou observando aquele belo pôr do Sol. Não se tratava somente de um ultimo desse, no ultimo céu, enquanto as praçinhas iam ficando desertas e a luz ia se extinguindo. Não se tratava apenas de um ultimo fenômeno colossal de um mundo prestes a dar seu ultimo suspiro. Não. Tratava-se, dentro da ultima cabeça pensante, do ultimo coração pulsante. Tratava-se da despedida da ultima moradora de um universo que minguava para dentro de se próprio e implodia. A ultima garota passou os cabelos por detrás das orelhas e ajeitou-se por cima das ultimas caixas empacotadas. Suas malas já haviam partido, assim como a casa, a confeitaria, a sorveteria, o parque de diversões e até mesmo o seu balanço central favorito. Tudo aquilo que naquele mundo ela prezava, desaparecera em um turbilhão mágico de espuma que, encheu-se com o ar aquele mesmo que ela expirou,e num ‘bang’ oco, se desfez. Ela sorriu ao ver o sol se esconder por entre as também ultimas nuvens, e acenou aos raios que mais pareciam feixes de aurora. Ela ergueu as mãos numa ultima e débil tentativa de acariciar os átomos de gás hélio flutuantes, mas, o processo se adiantava e o Sol já partia em direção ao nada infinito que é o fim ou o esquecimento, ela, estranhamente, não se chateou. Ergueu-se como um daqueles castelos de areia que o mar facilmente leva embora e fitou as caixas de madeira que no início fizera de banco. Havia coisas pulsantes dentro delas, coisas das quais a garota não queria desfazer-se de jeito nenhum. Eram pequenas bugigangas coloridas e brilhantes que faziam força contra as paredes débeis que ela havia construído, mas por mais que tentassem, eu as segurava firme e as comprimia junto àquela ultima parede na estradinha de barro. Os fogos de artifício encaixotados explodiam tentando chamar minha atenção, em vão. Virei-me de costas para eles até que num ultimo lamento como muitas ultimas coisas naquele ultimo minuto de mundo, perceberam que sem sentido era ,sua luta perdida contra as barreiras fortes de minha mente. Fitaram-me docemente e se apagaram. Sorri meio boba e meio tonta, meio livre. Nesses últimos instantes que compõe um minuto ‘pra sempre jamais’ é que se entende que não se pode viver a negar a sua própria natureza. A menina que era tudo e sabe se lá se era eu, não podia negar naquele maravilhoso e simples fim de tarde, que aquele não era seu mundo e mais tarde haveria de ter que retornar de um sonho do qual se sabe que pecou por estender-se de mais. Sabem-se bem, essas pessoas próprias que tem medo de abrir os olhos e estar no escuro, que, sempre existirão momentos em que estaremos numa ultima rua, numa ultima esquina, fitando o adeus interno de um último Sol amarelo, que se põe por trás de um sorriso calado ou um suspiro que nunca veio. Conheço-me bem, verdadeiramente, pra saber que não nasci pra odiar ninguém e muito menos pra ditar as regras de um mundo do qual sem querer, faço parte. Aprende-se nesses instantes minguados, afogados em si mesmo, que não se controla o tempo, o vento, a vida nem a morte, quanto mais as fatalidades que envolvem o seu próprio coração , que apesar da rima não chora. São em considerações finais de últimos capítulos de histórias que se escrevem sozinha,que se sorri do fundo do coração por descobrir que se amadureceu, se viveu, sofreu e porque não dizer, venceu. Venci sim, uma luta interna, externa, universal, existencial, pra descobrir no final o que é ser a ultima pessoa no fim da rua dos sentimentos. Lutei, cai, levantei, e venci. Venci uma luta que , antes de tudo, lutei por mim mesma e comigo mesma, e só ao descobrir que sempre fora comigo é que cuspi o sangue da boca e aprumei-me a esperar este belo pôr do sol que vejo agora. Não me sentei na janela de nenhum avião e nem encostei-me ao banco de um último carro. Não me fui de bicicleta, nem de patins, muito menos, a pé. Chega um dia em que já se caminhou tanto por seus próprios mundos que a idéia de bater perna dentro de si mesma torna-se insuportável, posto que preferi sentar e apreciar. Muitas coisas se desfaziam ao meu redor de formas belas e inteligíveis. Tangíveis. Choveram corações de chocolate, risos, criaram-se estradas de nuvens, caixas tornaram-se silêncios, e rostos foram esquecidos quando, de uma hora pra outra, rebobinaram a fita até o primeiro momento em que se encontram e vejam só: viraram os olhos ou não se deram as mãos. E no último segundo voltou-se ao momento da criação e o mundo tomou a forma que outrora fora, pra iluminar-se completamente e explodir. Ou seria desistir? Não. Não, o mundo só ficou velinho e eu também, me tornei velha e saturada dentro deste coração. Então se iluminou e me iluminou e me trouxe paz, e alegria e riso verdadeiro aquele gosto amargo e viciante que é a liberdade. Meu mundo interno morreu.
Não que a escuridão de um universo vazio não a deixasse assustada. Não que seguir sozinha fosse prazerosamente emocionante. Mas fato era e sempre foi que jamais esteve sozinha, nem antes e nem depois, e deu as mãos ás estrelas dentro dos meus olhos. Sorriu. Sorriu de novo e uma outra vez. Soltou, permitiu. Acenou e disse adeus. Tudo isso ainda empoleirada na ultima montanha, no ultimo mar, na ultima milha daquele agradecimento. E enquanto apagava-se aquela luz a qual tanto se apegara, despediu-se com voz de anjo, fingindo que anjo era, e o Sol se pôs, como pra ela a muito já devia ter se posto. Não havia mais o que dizer em letras cantadas de dentro de si, de fora de si. O Sol se desfez como chama que é soprada e fez-se a escuridão tão temida; mas seus olhos brilharam. Toda ela começou a brilhar e a reluzir , e vejam só se ela também não se desfez, vertendo pelas veias ,rosas, pela boca, borboletas, pelos olhos, alegrias, e pelos pés, milhas acompanhadas. Desfez-se porque esta era sua hora. Nenhum minuto a mais nem um minuto a menos. Era agora. e em seu último átimo consciente, ela sabia. Ela sabia e já feita em milhões de pedaçinhos, dizia adeus a última esquina da ultima casa, que já nem existiam, e sem ter boca sorriu, e sem ter voz, ressoou. Morri naquele instante, morri dentro de mim, junto com uma bela personagem fictícia que vendia flores. Morri e vivi, bem ali.
E quando o Sol se punha do lado de fora das minhas poucas ( nem tão poucas) palavras, eu lhe escrevia , finalmente, depois de séculos talvez, uma ultima carta. Somente nesta, verdadeiramente feliz, por poder caminhar com os próprios pés e pra pedir que fiques pra sempre distante. Sol entende Sol, fé entende fé, sem que mais palavras precisem ser ditas. Assinei como quem se lembra quem foi numa vida passada, mas que percebe, vejam só que curioso, numa ultima rajada de vento que leva dos seus dedos, a pena. Que era um mundo de Sol que se foi por detrás das nuvens, e que ela também poderia ser o Sol e nascer noutro lugar.
Pois não se pode negar a si mesmo. E sou luz que se apaga do seu coração, pra poder ser outra luz, de outra cor, de outro sabor em outro lugar. Onde não existam momentos em que se esita. E poderei olhar, sem querer piscar, nos olhos de alguém que também não vai querer piscar para os meus. Mas quem não desvia o olhar de mim? se sou luz.
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