quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Uma volta em torno de mim mesma. Seguro o dedo mindinho das saudades


Querida vovó, hoje está chovendo.
Pensando bem está até bem diferente do mesmo dia, uma volta de Terra atrás. Não sei.
Chove. Não sei muito bem aonde chove, se é dentro de mim, fora de mim, ou entre os dois. Entre mim e a vida que acontece lá fora do meu coração, lá fora da minha cabeça. Eu queria escrever coisas bonitas pra você ai do paraíso, poder se emocionar, gostar de mim, anotar mentalmente que eu sinto a sua falta , e que hoje, chove. Mas não posso vovó. Não acho que eu consiga fazer nada. Desde aquele dia não escrevo como a mesma Luciana que você conheceu. Aquela menina bobinha que chora todo dia, no seu colo, no seu braço, na sua cama, na sua parede. Que chorava as suas costas. Mas ontem chorei. E olha que chorar é coisa de fracos que não sabem vencer sua dor; mas eu não acho que chorar defina quem é forte ou quem  não é. Na verdade não sei nada sobre essa coisa de ser forte, não sei nada sobre saber de tudo ,ou entender de nada.
Vovó, acho que sei algo sobre sentir saudades ou de solidão, mas também não sei. Tem tantas pessoas aqui, debaixo desse mesmo céu chuvoso, dessas mesmas nuvens grossas, mas delicadas, porque elas sim derramam lagrimas que eu, uma velha presa num corpo juvenil, não te posso derramar. Quis escrever, te escrever, te descrever. Cada detalhe. Quis te eternizar com as palavras, mas minha garganta embarga e as palavras somem. Muitas coisas sem você somem. A voz, o brilho, o calor, os doces de morango, a confiança da mamãe, os remendos dos panos. A alegria, o conforto, a bondade, a paz, a esperança, e até o Sol. O Sol que fez o grande favor que devia ter feito naquele dia, a uma volta de Terra atrás, e não nasceu. Porque as coisas nascem?
Eu também não sei, mas mesmo que você também não faça a mínima ideia, gostaria de estar ao seu lado e ouvir seu resmungar, uma resposta vazia, qualquer resposta.
Queria ouvir a sua voz, da qual me lembro, como poderia ousar não me lembrar? E ela passa os dedos velhos e enrrugadinhos, com aquela sua unha doente do dedo que fica do lado de dedo mindinho e eu não lembro o nome.A sua voz fica aqui na minha cabeça em dias como esse. Dias de ser forte, no sentido mais injusto da palavra. Bem melhor seria se esse forte significasse carregar uns caminhões, e toneladas e toneladas de ferro, de levantar peso, de erguer nas mãos planetas, de ser forte a ponto de chutar carros do caminho, de por abaixo casas, de dar uma surra em alguém. Fosse qual fosse a atividade, seria um peso mais brando, uma força mais leve. Essas forças que se executam com alma cansam. Elas destroem meu espírito. Elas me esmagam. Essas forças que te impedem de deixar os olhos sangrarem de maneira transparente e salgada, como se fossem ligados ao mar, e que te prendem em milhões de correntes que não te deixam tremer, e que te destroem a garganta pra que você não possa gritar. Venho sendo forte desse jeito a tanto tempo, que esqueci como é reconfortante a sensação de saber, de deixar todos saberem que você é fraca. Que eu sou fraca e a lutadora que é você é forte, delicada. Invisível aos olhos de todo maldito ser humano, menos aos meus. Não é só a sua falta que me dói no inicio, no meio, no fim, e nos começos de outros dias sem essa data mas com as mesmas chuvas. São as faltas que você faz a todo mundo, a mamãe que é mais sozinha do que eu, a madrinha que agora é mãe, ao vovô que se perde naa linhas dos seus olhos miudinhos, e que não esconde seus buracos que se abrem como buracos negros bem grandões que engolem cada pedacinho meu, cada pedacinho do mundo. Faz falta pros meninos, pra sua casa, pro seu filho distante, pras suas fotos, pra sua dispensa, pras suas roupas doadas, pro seu colar que eu penduro no pescoço pra que ele penetre dentro da minha carne e se enrosque no meu coração. Você faz falta. Mais falta do que qualquer outro homo sapiens poderia fazer nessa cidade que ficou escura e sem lar, quando você teve que ir e deixar as estradas com gosto de pedras, pela primeira vez como ruas. Mas não sei vovó.
Eu não quero soar triste pra você. Você que sempre foi quem mereceu toda a felicidade.eu quero te dizer que a vida tem sido linda, e não te preocupar dizendo que não sei o que que eu tou fazendo nesse mundo se você não estiver aqui. Eu quero te dizer que fiz amigos novos e legais. Sério, daqueles que eu teria elogiado durante horas no seu ouvido, enquanto puxava as suas pelancas e ria. Eu teria te dito  que eles são estranhos vovó, outros, bem comuns.eu te diria que mostrei a eles meus poemas, que mostrei a eles fotos suas. Eu te diria que abracei muitas vezes o Kaito, e que melhores amigos seguram sua mão. Eu acho que olharia nos seus olhos e ouviria aquele seu conselho mais um milhão de vezes, que alias, já deve estar todo amaçado pelas mãos da minha cabeça; porque virei e revirei ele pelas linhas do meu cérebro, tantas vezes que a imagem virou filme sem botão de stop, e ele passa e repassa nos meus olhos, e eu penso em gostar de quem gosta de mim, mas ninguém gosta de mim do jeito que você gostava. Só que ninguém me ama do jeito que eu te amo. E já estou aqui eu, de novo, falando de coisas tristes que só se tornaram tristes porque são as coisas mais lindas que a minha alma é capaz de fazer brotar em dias como esse em que a Terra dá voltas. Eu queria me lembrar de algumas flores pra mandar mentalmente pro paraíso especial e único que Deus deve ter construído pra você. mas ai lembro que você não gostava muito de flores. E isso me dá vontade de rir, porque nunca conheci ninguém que se assemelhasse tão literalmente a uma flor. E bem que é possível que as flores tenham sempre te imitado e você não gostasse de se ver tão linda, refletida naquelas folhas que também não tem um terço desse perfume único e reconfortante seu. Sim, seu perfume vovó. Seu perfume de casa e segurança. Esse seu sorriso lindo que eu jamais vou conseguir imitar.
E hoje faz um ano. Uma misera e comum volta de Terra ao redor de uma bola de gás hélio que antes era o sol, mas agora me parece mais uma geleira. E as pessoas lá fora continuam suas vidas, suas caminhadas, suas despedidas. Elas riem, elas amam, elas sorriem. Elas abrem seus guarda chuva e se protegem dessa água que cai em sua homenagem, mas agora que eu olho pra janela, vejo que ela já parou. Eu imagino as pessoas andando por entre esses prédios , e essas casas. As imagino em seus carros, em suas vidas. Vestindo suas roupas confortáveis, assistindo televisão, dizendo olá, dizendo adeus. Vendo filmes que já assistiram. Abraçando seus entes queridos. Abraçando aqueles que elas queriam afastar. E nesses momentos, eu detesto essa vida , mas não nego que é bela. É adorável, é maravilhosa. É completamente dualista e desconexa. Muitos deles não sabem que exatamente á essa volta de Terra de sol, a essa volta de mim mesma, a vida parou. Ela continua, ir embora em si até parece vida. E eu fico nessa de ser forte, de sentir saudades, de me forçar  e escrever uma coisa feliz e bonita, mas me acho tão feia digitando essas palavras... e sinto medo de dizer coisas cruéis que despedaçariam corações que te conhecem, que fariam as águas do mar desaguarem dos seus olhos. Mas não sei, não sou capaz. Só posso dizer que a sua vida foi a minha boa vida. A sua vida vive dentro de mim, e não sei se me mata ou me ajuda a viver, pensando bem, há diferença?
E o seu abraço me faz mais falta que os dois braços e as duas pernas. Apesar de eu querer continuar a andar e a abraçar corpos frios que não são o seu. E apesar de eu querer continuar a segurar dedos mindinhos, nessa solidão aguda que sentem as pessoas que por dentro estão sozinhas, e com você eu não estava. Espero que você esteja orgulhosa vó, ai de cima. Tenho feito tudo que posso. Lembro de você todos os dias, e sonho acordada, e vejo as suas fotos. E sigo em frente. Sem dar aquelas olhadelas para trás é impossível, não? Mas sigo. Eu tento. Eu tenho tentado não julgar, não gritar, não me rebelar, mas é difícil. Prefiro estar aqui e cumprir minhas promessas. Prefiro dizer, sem você escutar, que te amo. Que te amo profundamente e de toda a minha alma. Com toda a minha força e com toda a minha fraqueza. Na minha saúde, na minha doença. Nos braços de todos, nos dias sozinha. Te amo na minha saudade e na minha lembrança. Com flores, sem flores, com unhas pintadas e sem seus esmaltes. Te amo em dias de chuva, em dias de sol. Quando eu me saio bem, mas mais quando me saio mal. Te amo no pra sempre e só nesse segundo. Te amo com tudo o que eu sei sobre essa coisa de amor, e te amo com toda a minha incerteza e a do mundo. Te amo na certeza de que o maior presente que Deus me deu, foi você.
Eu te amo Iraci. Desde aqueles dias em que eu dormia na sua cama, em que fazíamos suas compras juntas. Eu te amo desde o tempo em que me dava banho, que fazia aquele mingau de aveia que eu comia. Eu te amo desde aquele meu início, meu primeiro dia. E você tem sido aquela que cuida de mim, incondicionalmente, tão grande, tão grande dentro do meu peito. Que a Terra, e as galáxias, e os dias, e o universo, e o tempo, e a morte a vida, que todos eles podiam explodir dentro de mim.
Porque você é grande. Eternamente grande. Tão grande quanto o amor pode ser.Maior.

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