domingo, 15 de agosto de 2010

Hey you !



Eu não sei como, nem quando foi acontecer.
Foi como um baque, um daqueles chutes na quina de uma cama. Foi um cidente de carro.
Um vôo de paraquedas. Uma queda de um paraquedas.
Foi tudo pra mim. E aconteceu.
Eu tinha uns 9 anos de idade e uma tiara com balinhas por cima. Na lembrança ( deteriorada) dela era um centopéia, não era não.
Eu sava uma saia colorida e uma blusa coloida. Tinha os cabelos curtissimos e pretos.
Uma daquelas menininhas mimadas.
Eu odiava aquele lugar. Tinha vergonha. Tinha medo.
A aluna nova da escola.
Ela já era de casa. A menina inturmada da escola. Ela achava que 'mandava no pedaço'. Ela era pequena dos cabelos cacheados. Dos tênis cor de rosa. Ela era 'do gueto'.
Eu não gostava daquela menina.
Ela também não gostava de mim.
Eram dias de intensa competição. Eu sempre disse que as pofessoras gostavam mais de mim.
Uma sentava atras da outra.
Ela tinha as canetinhas mais bonitas.
Eu tirei 10 nessa prova. Você viu?
sorri.
Ela fechou a cara, cruzou os braços e empinou o nariz.
Conheço muito essa expressão.
Posso desenhá-la de olhos fechados.
Eu era a inocente.
" você quer comprar esse Card de mim? pra você faço 1 real"
" Oba! eu quero!"
nas lojas 4 eram R$0,25.
Hoje nós vamos brincar de pique no ar.
Eu não quero.
Ela quer.
Aquele menino loirinho gosta de você.
Minhas bochechas esquentam.
Ela ri.
Competimos.
Ela briga.
Ela é forte. Tenho medo dela.
" Você quer ir brincar na minha casa? minha mãe vai fazer um lanche pra nós"
" toma aquele adesivo que você pediu "
quer vir brincar na minha casa de novo?
e de novo.
e de novo.
e de novo.
Vem brincar aqui.
Quer dormir na minha casa?
vamos brincar de cazinha?
você não gosta, quer brinca de cantar?
Ela era a Dulce Maria. Eu era uma tal de Lupita.
Eu era a melhor em geografia e ciências, história, artes.
Ela era a melhor nas matemáticas.
" Olha , eu tirei 10 "
abaixei a cabeça. Fechei os olhos. fiquei com vergonha
Inclinei a cabeça e sorri.
Você pode desenhar minha expressão de olhos fechados.
Conhece muito bem.
Foram anos que se passaram.
foam décadas
foram meses
foram dias?
que estranho é olhar pra minha vida.
Porque você está lá desde do início.
Polliana, cadê você?
Estou aqui Luciana. Burra.Cega.
Que alívio. Polliana está aqui.
Foram anos e anos que se passaram. disso eu tenho certeza.
Me apeguei a ela. Não estava mais usando alguém pra virar a rainha da quata série.
Não era mais alguém pra contar que o menino loiro de olhos azuis era uma gracinha.
Ela continuava a pegar o meu lanche.
Catar o meu dinheiro.
Falar bem das minhas roupas ( muito mal por trás)
a me odiar por dentro.
E eu já amava ela.
" eu te amo, amiga!" dizia ela.
Por todos esses anos, não sabia se era mentira.
Criança.
Quase-não-mais-criança
quase-pré-adolecente
pré adolcente
moçinha
adolecente
e seja lá qual fase estamos agora.
Possover que ainda viram as fazes jovens, adultas, as crises de meia idade.
Sei que ainda vai vir a velhice.
" Posso dormir na casa da Polliana, mãe?"
brincadeiras de papel.
Nostalgia.
Polliana. Luciana.
As pessoas não conseguem separar mais.
" Polliana cadê a Luciana?"
" Luciana, onde está a polliana?"
Que saudade.
Que saudade.
Eu era só uma meninha de cabelos pretos curtinhos, perto da orelha.
Eu queria a amizade dela.
Por dentro, sei que ela também queria a minha.
Ela era só uma menina de cabelos lindamente cacheados, e os tênis que eu odeio nos pés.
Não era não.
Ela já era brilhante.
Minha amiga.
Minha irmã.
Sua velha. Me deu tanta vontade de chorar agora.
Será que ela ainda me odeia. Eu me pergunto as vezes.
Anos e anos depois daquele primeiro dia.
Será porque que ela enchugou minhas lágrimas todos esses dias.
Porque ela chorou comigo?
porque me ouviu gritar?
porque ela disse que tudo sempre ia dar certo?
Porque eu sempre acreditei.
Minha polliana.
Minha alma em uma de suas extensões.
Ela não fala mais mal do meu cabelo.
Ela ainda ri da alface no meu dente.
Ela ainda é aquela menininha pra mim.
Ainda quero coloca veneno no refrigerante dela. Se eu colocar, que bebe primeiro sou eu.
Luciana, sua burra. Idiota. Luciana, sua retardada. Luciana, faz isso ! Luciana volta aqui.
Polliana. Me dá tanta vontade de sorrir.
Sua nerd. sua esquisita. Sua boba.
Eu ainda escuto você me dizendo.
Escuto aque se torna musica nos meus ouvidos. é assim com tudo que você diz.
Eu não posso te pagar.
Desculpa.
Amor, dinheiro não pode comprar.
céu não pode comprar.
Nem estrelas.
"polliana, hoje tá chato."
"Luciana, eu tenho um pressentimento"
- Não, mesmo?- falamos juntas.
Gosto do som das nossas vozes juntas.
parece musica.
Pra mim.
Todos esse anos, e eu nem sou mais quem eu era.
Tudo foi antes, e tudo foi depois.
" Mãe, é a Polliana."
" vou pra casa da polliana "
" vou sair com a polliana"
" que raiva da Polliana"
"O que eu faria sem a Polliana?"

Lembra daque dia?
- Polliana.. que nome estranho.
você me bate.
dói.
eu rio.
Você ri.
tenta me ofender também.
Depois de tanto tempo, você me ama também.
Ela é minha irmã.
Ela é o colorido e eu sou o cinza, o preto e branco.
Ela é amada, e eu sou a ouvinte.
Polliana, eu te amo.
Como naquela primeira vez, você se lembra?
" quer ir brincar na minha casa hoje?"
Quer ser minha amiga hoje?
Eu não existo sem você

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